Mais um ano que passa, deixando para trás, apesar de tudo, a memória de coisas boas e o fel das coisas más. Mais um ano de crescimento, mais um ano de projecto adiados... Foi um ano bom, este. Adorei as nossas férias de verão, fortaleci algumas amizades embrionárias, vi a minha filha tornar-se uma menina, em vez da bebé cor-de-rosa e rechonchuda. Aprendi coisas novas, mas há ainda tanto que fazer... pode ser que este seja o ano da verdadeira mudança, ou, pelo menos, do limar de arestas, do polir cantos e recantos da vivência quotidiana.
Ano novo, vida nova... se é atribuído ao número um uma simbologia de iniciação, eu vejo neste novo ano que está prestes a emergir uma nova oportunidade para melhorar, para aproveitar cada momento, para ser mais feliz. Por isso, vou traçar aqui alguns objectivos que pretendo atingir nestes 365 dias que se aproximam:
- recuperar o peso anterior à gravidez;
- aproveitar melhor o meu tempo, controlando mais o que gasto em frente ao computador;
- continuar a bloggar;
- investir numa alimentação mais cuidada e equilibrada;
- fazer exercício físico;
- experimentar as vantagens da depilação definitiva;
- cuidar mais e melhor de mim;
- ir ao teatro mais frequentemente;
- fazer um total makeover no meu quarto;
- investir mais nas amizades profundas que tenho, que, em virtude do bulício do dia-a-dia, são muitas das vezes descuradas;
- apostar "no que ainda não foi feito";
- resolver questão pendente com a editora dos meus livros;
- conhecer mais uma capital europeia;
- ler mais;
- fazer escapadinhas românticas, pelo menos, de três em três meses (4 x no ano);
- ir a um spa;
- aprender uma língua nova (espanhol ou italiano);
- ter mais um filho;
- fazer madeixas louras no cabelo;
- combinar jantarada só de amigas no dia dos meus 40 anos e dançar toda a noite;
20 desejos, 20 projectos a que me vou entregar de "alma e coração" no próximo ano.
Daqui a 12 meses, espero estar a redigir um post em que os tenha cumprido a todos...
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
Loucura
Se tu soubesses
Que a sombra do que eu sou
tem mergulhada o sonho e a ilusão;
Se tu visses o meu coração
ferido, cicatrizado, ensanguentado
pela tua insensatez e mentira;
Se tu conhecesses
a dor, o desalento, o desespero
que me deixaste em vez do amor;
Saberias que tudo o que fazes é pouco
para mitigar a sede de amor
e a fome de compreensão que tenho no peito.
Porque perceberias que nunca mais apagarei
A dor que deixaste, o frio intenso,
os sonhos inacabados e o silêncio,
a incompreensão, a dúvida, a mentira
a falsidade, a injustiça, a ira.
Que a sombra do que eu sou
tem mergulhada o sonho e a ilusão;
Se tu visses o meu coração
ferido, cicatrizado, ensanguentado
pela tua insensatez e mentira;
Se tu conhecesses
a dor, o desalento, o desespero
que me deixaste em vez do amor;
Saberias que tudo o que fazes é pouco
para mitigar a sede de amor
e a fome de compreensão que tenho no peito.
Porque perceberias que nunca mais apagarei
A dor que deixaste, o frio intenso,
os sonhos inacabados e o silêncio,
a incompreensão, a dúvida, a mentira
a falsidade, a injustiça, a ira.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Para quem merece
Ontem, deambulava eu pelos blogues, como é habitual à hora de almoço, quando li uma frase num deles que resume aquilo em que eu acredito, mas, paradoxalmente, nunca faço. A frase era: «não tratemos como prioridade, quem nos trata como opção».
A frase passou todo o dia a matraquear na minha cabeça. Na minha vida tenho sido vezes demais a opção de muita gente, referindo-me a amizades, claro está. Pessoas de quem eu gosto bastante, que me tratam como segunda escolha ou opção, ou que se lembram de mim, em penúltima instância.
Com o amadurecimento, percebo que, cada vez menos, posso confiar nas pessoas com quem senti uma forte empatia inicial. E, se quando era adolescente, só firmava amizades com pessoas de quem tinha "gostado" da cara (costumava dizer que quando olhava para alguém sabia logo se gostava ou não), cada vez mais percebo que há pessoas com quem sentimos empatia e que se tornam valiosas amigas, há aquelas com quem a coisa funciona bem, durante uns tempos, e, por fim, há os que nos surpreendem e cuja amizade vai-se desenvolvendo com a descoberta de personalidades e de pontos de referência. Estes são os que acabam por ficar mais tempo nas nossas vidas.
Fico triste por perceber que hoje em dia é difícil fazer amigos. Cada um tem a sua vida e parece que as pessoas se esquecem do outro, que se recusam a partilhar, a conviver. Custa-me que não haja convites para estar junto. Se eu quero almoçar com amigos, convido-os para cá virem a casa, mas não há depois um retorno, nada. Hoje em dia há muito egoísmo e ingratidão. Já poucas pessoas fazem coisas pelos outros por amizade, por desinteresse. E parece-me que sou sempre eu a enganada, a desiludida, a que nunca aprende.
Ontem, aquela frase fez todo o sentido. E, pela primeira vez, recusei o irrecusável, fui firme e coloquei-me como a minha prioridade número um.
Tenho uma amiga recente com quem partilho muita coisa. Trabalhamos juntas e somos amigas há cerca de dois anos e meio. Ela sabe imensa coisa sobre mim, inclusivamente, segredos incontáveis. Nunca fomos a casa uma da outra e a nossa amizade subsiste pelo contacto diário e por telefonemas e inúmeras mensagens nas férias. A amiga teve bebé, um bocadinho antes de tempo. Precisamente num fim-de-semana em que eu cá não estava. Como não a pude visitar na maternidade, como tínhamos combinado (ela sabia que a minha escapadinha estava marcada há meses), fiquei de ir lá a casa. Que eu não sei onde fica. Entretanto, como o bebé dá noites más, a visita ficou adiada, «até ele ter um mês». Pois já tem. Quando tínhamos uma data aprazada, a amiga disse que teria de adiar, porque a empregada estava lá em casa nesse dia. A semana passada voltámos a combinar que seria esta quarta-feira. Telefonei-lhe na semana anterior, para ultimar pormenores. Ela não atendeu. Mandou mensagem a dizer que ligava na sexta. Não ligou, nem no fim-de-semana, nem na segunda. E ontem, minutos depois de ler a dita frase, mandou-me uma mensagem a perguntar se sempre ia visitá-la no dia seguinte. Fiquei furiosa: além de ser incapaz de cumprir o que prometeu, veio com uma desculpa que não tinha ligado, por que lhe dava mais jeito falar ao telefone só de manhã, por causa de o bebé poder acordar durante a sesta, ao ouvir a voz dela. (os sms não fazem barulho, pois não?).
Fiquei mesmo chateada. Não gosto que se comprometam comigo e que não cumpram. E começou a fazer-me parecer que a única interessada no encontro estava a ser eu. Mandei então um sms de resposta, dizendo que não estava a contar ir visitá-la. Que tinha essa vontade e essa intenção, mas que, perante a ausência de resposta da parte dela, até aquele momento, tinha pensado que ela já teria outros planos. Que combinaríamos outro dia, quando lhe fosse mais oportuno.
Então, desculpem lá, eu vou sair a correr do trabalho, calcorrear quilómetros, andar à procura em plena cidade de um sítio que eu nem conheço, só para ir a casa de quem parece que não me quer receber? Andei eu a fazer peditórios na escola, para comprarmos uma prendinha para a criança (a minha já está comprada há tanto tempo que daqui a pouco não vai servir...), ando eu a telefonar, a combinar, para ficar sem resposta durante uma semana? Vou eu abrir mão de uma tarde que posso aproveitar para adiantar trabalho, para isto?
Não obstante, fiquei cheia de remorsos. Eu gosto desta amiga. E não entendo porque é que as coisas me acontecem sempre a mim. Se não lhe apetece que eu lá vá, porque sugere uma visita? Se não está com vontade de ver ninguém, por que é que não diz? Eu própria a coloquei à vontade nesse sentido. Para que é isto? Este tipo de atitudes só me fazem ficar aborrecida e constatar que eu desperdiço muito do meu tempo com pessoas que não sabem dar valor. Eu não sou de guardar rancores, mas fiquei triste, pronto. Vai passar-me, vou lá ver o bebé e vou voltar a cair no mesmo erro, vezes e vezes, sem conta.
Mas hoje fiquei por aqui. Pelo menos hoje, eu só estou para quem merece!
Regresso
Praticamente um ano depois do meu último post, apeteceu-me regressar. Houve muita coisa que mudou, há, por esse motivo, muita coisa a alterar aqui. Apenas a vontade de escrever permanece.
Este blogue vai retomar a programação, dentro de momentos!
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Assaltos, roubos, crime e companhia
As notícias de abertura dos telejornais começam a ser previsíveis. Todos os dias há assaltos, roubos, crimes, homicídios... sempre perto de nós, e ,felizmente, vamos escapando incólumes a esta criminalidade crescente. E quando for connosco?
Ontem presenciei uma cena. Ao sair do supermercado, o segurança retém um homem. Este ia acompanhado por uma mulher que falava ao telemóvel, mas ela nem reparou e continuou a andar. O segurança pede a uma das raparigas da caixa para chamar a senhora, para que ela lá vá ter. A rapariga corre atrás da senhora e chama-a. A outra, como deve ter percebido o que se queria, maltratou-a verbalmente, disse-lhe que estava a falar ao telemóvel e que não ia. A rapariga voltou para trás, percebendo que se insistisse iria sobrar para ela. Toda a gente viu e ninguém fez nada. Nada! Eu também não, confesso. Eu? Eu não! Mas fiquei danada comigo própria, com as outras pessoas, com tudo isto. É fácil assaltar, roubar. Ninguém faz nada. O homem que lá ficou, passa a vergonha, quer dizer, não passa, que vergonha tenho eu, ele nem se deve chatear. Chama-se a polícia e ele é libertado.
Ia para casa, já no carro, e deu uma revolta enorme. Eu farto-me de trabalhar. Tenho uma vida normal, tenho dinheiro para as coisas básicas. Gostava de ter mais, pois gostava. Mas não ando aí a roubar! E os velhotes que ganham a reforma mínima, que é praticamente gasta em medicamentos, e que não têm o que comer, também não andam a roubar! E esta gente que rouba Whiskies de 12 anos, caviar, coisas caras, luxos, com que direito o fazem? Por que é que quem trabalha gasta dinheiro em pão e alimentos básicos e os outros que se calhar nem têm ocupação roubam? Mas que raio de sociedade é esta? Mas que impunidade lhes toca?
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
E se estivessem calados?
Nos últimos dias têm vindo a lume as declarações dos atletas portugueses que competem nos Jogos Olímpicos em Pequim. Após as eliminatórias, nas finais. As reacções de quem andou quatro anos a treinar e que não conseguiu a almejada medalha.
Acho que nós, portugueses, somos por vezes injustos em relação aos atletas que nos vão representar na Europa ou nas competições internacionais. A Selecção Portuguesa de Futebol, por exemplo. Na altura da partida, todos apoiamos, colocamos bandeiras nas janelas, visionamos os jogos com expectativa. Mas quando algum desaire nos toca, desistimos de apoiar. Como se os desportistas não quisessem fazer o melhor, como se a vitória fosse garantida. Os jogos, sejam de que tipologia forem, são jogos porque há que lutar para ganhar. Mas há um vencedor e os outros não o serão. E a sorte ou o azar têm de calhar a alguém.
Também me faz muita confusão que não haja o mesmo tipo de apoio quando são os Jogos Paraolímpicos. Temos uma série de campeões, mas ninguém sabe o seu nome, ninguém dá conta dessas vitórias. Mas essa é apenas mais uma das coisas incompreensíveis do nosso povo.
Mas deixa-me voltar à questão que me trouxe aqui. As declarações dos atletas portugueses. Os ditos de alta-competição. A par do treino físico, desconfio que os atletas deviam ter umas aulitas de chá, de formação cívica. É que há uma coisa na vida e no desporto chamada bom perder ou desportivismo. E a mim está a parecer-me que os nossos atletas reflectem a crise de valores que existe na nossa sociedade e que faz transparecer a ausência de esforço e de fair-play. A nossa Telma Monteiro garante que não alcançou o seu sonho, porque os júris estariam de certo modo comprados para fazer ganhar a atleta chinesa (influências do Apito Dourado, só pode!). A Naide Gomes até estava a ter um discurso coerente, dizendo que tinha feito o seu melhor, até ter a saída infeliz que ninguém tinha morrido, nem estava doente. Mas para mim, a melhor de todas foi a do atleta do lançamento de peso, Marco Fortes, que eu nunca tinha ouvido falar ( sim, eu sou daquelas infelizes que não liga nenhuma ao desporto). Para justificar-se, como se precisasse de o fazer, teve a feliz tirada de dizer que "De manhã só é bom é na caminha, pelo menos comigo". Por amor de Deus! Que raio de imagem é que estes atletas dão de nós? De preguiçosos, de pouco esforçados? Anda o Estado a financiar por quatro anos estes atletas para deixarem assim ficar a nossa imagem?
No mesmo dia, também Jéssica Augusto, após a eliminação na prova dos 3.000 obstáculos, anunciou que iria de férias. Abandonou a corrida dos 5.000 metros afirmando que não participaria porque "não vale a pena", dada a forte concorrência africana. (É alta competição, certo? Queria o quê, correr comigo?) Arnaldo Abrantes, eliminado nos 200m, justificou a sua fraca prestação com o facto de ter "bloqueado" quando viu o estádio olímpico cheio, enquanto Vânia Silva, eliminada na prova do lançamento do martelo, admitiu que "não é muito dada a este tipo de competições" (pensava que estava onde? A ver um jogo de futebol? O que é que andou então a fazer nestes últimos quatro anos?)
Estou mesmo a ver, este ano, quando quiser marcar os testes para as 8.30 da manhã o que é que eu vou ouvir de alguém que tire uma negativa. É que se o atleta que nos representa pode invocar a hora da prova como desculpa, o mesmo poderá fazer um aluno de 15 anos.
Aqui deixo a minha sugestão: e se estivessem caladinhos? Ou pelo menos, se isso for inevitável, se calhar era uma ideia o Comité Olímpico ter a boa ideia de fornecer uma cabulazinha para que saibam o que dizer, pelo menos de forma politica e desportivamente correcta. Pode ser?
Nota: Admiro imenso a nossa Vanessa Fernandes, o Nélson Évora, o Obikwelu, o Gustavo Lima, entre outros, que revelaram a sua humildade, esforço e verdadeiro valor, trouxessem ou não medalhas! Estes sim são atletas portugueses!
sexta-feira, 27 de junho de 2008
E foram felizes para sempre. Ou não.
Este era o final dos contos tradicionais que me liam na infância. Nunca pensei muito se acreditava ou não nesta sentença final. Mas, ultimamente, tenha constatado que a tradição já não é o que era e que cada vez mais conheço pessoas a sofrer por causa de um fim. Anunciado ou não. E juro que não consigo compreender.
Casei há mais de uma dezena de anos. Por amor. Óbvio! E casei convictamente de que era este homem que eu tinha escolhido para o resto dos meus dias. É nele que confio todos os pequeninos nadas da minha existência. Tenho a certeza absoluta que sou a sua melhor amiga. Olho com muito orgulho a filha que nasceu do nosso amor e sei que ele é a minha alma gémea. E nutro por ele um amor tão grande, tão avassalador, que às vezes me parece nem ficar contido no peito. Continuo apaixonada como no primeiro dia.
Ontem soube da notícia da decisão de divórcio por parte de uma amiga. Que está muitíssimo triste, devastada com essa certeza. E pensei como deve doer. O que faria se fosse comigo. Como é injusta esta vida em que nos damos a alguém por uns anos, entregamos-lhe toda a nossa vida, coração e alma, para que essa pessoa amachuque essa dádiva com as duas mãos, essas que anteriormente nos acariciavam e seguravam nos bons e nos maus momentos. Como é que o sentimento acaba? Que sinais deixa? Como é possível sermos surpreendidos? Como é que podemos fazer de tudo, mas o outro não percebe o quanto sofremos e o quanto tentamos, até chegar a um ponto em que se acha estar a enlouquecer? Por que é se deixa de investir na relação? Como se pode magoar tanto assim? Porquê? Porquê?
E se fosse comigo? Como arranjaria forças para continuar? Como poderia sair da nossa casa e começar tudo do zero? O que é que eu fazia do quarto da Leonor? Pintaria as paredes da mesma cor? Tentaria construir noutro sítio esse mesmo espaço? E as coisas para dividir? O que se faz com as fotografias felizes guardadas no álbum de recordações? E os móveis? E as prendas que o outro nos deu ao longo dos anos? Para que quereria eu a cama, se estava vazia do outro lado e com o teu cheiro nos lençóis? O vestido de noiva, o anel, as lembranças, a vida, arrumados em caixotes. Um coração pequenino que tem outra vida para cuidar e que não se pode dar ao luxo de entrar em depressão, a ter uns dias de sofrimento a sós, deitado na cama? E os fins-de-semana, de quinze em quinze dias em que o filho vai embora? E a solidão, meu Deus, a solidão?Como começar tudo de novo? Como te esquecer? Como sobreviver?
Não sei o que dizer à S. Não sei como diminuir o seu sofrimento. Apenas posso abraçá-la, dar-lhe o meu apoio. Tendo a certeza que isto não é nada. Tenho alguém que sofre à minha frente e não há nada que possa fazer. Nada. Só dar-lhe o meu ombro amigo.
Casei há mais de uma dezena de anos. Por amor. Óbvio! E casei convictamente de que era este homem que eu tinha escolhido para o resto dos meus dias. É nele que confio todos os pequeninos nadas da minha existência. Tenho a certeza absoluta que sou a sua melhor amiga. Olho com muito orgulho a filha que nasceu do nosso amor e sei que ele é a minha alma gémea. E nutro por ele um amor tão grande, tão avassalador, que às vezes me parece nem ficar contido no peito. Continuo apaixonada como no primeiro dia.
Ontem soube da notícia da decisão de divórcio por parte de uma amiga. Que está muitíssimo triste, devastada com essa certeza. E pensei como deve doer. O que faria se fosse comigo. Como é injusta esta vida em que nos damos a alguém por uns anos, entregamos-lhe toda a nossa vida, coração e alma, para que essa pessoa amachuque essa dádiva com as duas mãos, essas que anteriormente nos acariciavam e seguravam nos bons e nos maus momentos. Como é que o sentimento acaba? Que sinais deixa? Como é possível sermos surpreendidos? Como é que podemos fazer de tudo, mas o outro não percebe o quanto sofremos e o quanto tentamos, até chegar a um ponto em que se acha estar a enlouquecer? Por que é se deixa de investir na relação? Como se pode magoar tanto assim? Porquê? Porquê?
E se fosse comigo? Como arranjaria forças para continuar? Como poderia sair da nossa casa e começar tudo do zero? O que é que eu fazia do quarto da Leonor? Pintaria as paredes da mesma cor? Tentaria construir noutro sítio esse mesmo espaço? E as coisas para dividir? O que se faz com as fotografias felizes guardadas no álbum de recordações? E os móveis? E as prendas que o outro nos deu ao longo dos anos? Para que quereria eu a cama, se estava vazia do outro lado e com o teu cheiro nos lençóis? O vestido de noiva, o anel, as lembranças, a vida, arrumados em caixotes. Um coração pequenino que tem outra vida para cuidar e que não se pode dar ao luxo de entrar em depressão, a ter uns dias de sofrimento a sós, deitado na cama? E os fins-de-semana, de quinze em quinze dias em que o filho vai embora? E a solidão, meu Deus, a solidão?Como começar tudo de novo? Como te esquecer? Como sobreviver?
Não sei o que dizer à S. Não sei como diminuir o seu sofrimento. Apenas posso abraçá-la, dar-lhe o meu apoio. Tendo a certeza que isto não é nada. Tenho alguém que sofre à minha frente e não há nada que possa fazer. Nada. Só dar-lhe o meu ombro amigo.
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